Doutorar [01]
Brinquei com alguns amigos que este ano de 2011 seria de muitas citações aqui no Dobras. Isso porque preciso engrenar minha pesquisa de doutorado e para tanto, muitas leituras e estudos à vista. Nem sempre será tranquilo sentar para escrever um post neste processo. Por esta razão começo a escrever o Doutorar como uma forma de compartilhar por aqui o que ando refletindo. Serão os meus fichamentos.
Simon Schama | Paisagem e Memória
“Os fundadores do moderno ambientalismo, Henry Thoreau e John Muir, garantiram que ‘nos ermos bravios se encontra a preservação do mundo’. A idéia era que a natureza selvagem estava em algum lugar, no coração do oeste americano, esperando que a descobrissem, e que seria o antídoto para os venenos da sociedade industrial. Os ‘ermos bravios’, contudo, eram, naturalmente, produto do desejo da cultura e da elaboração da cultura tanto quanto qualquer outro jardim imaginado. O primeiro éden americano, por exemplo, e também o mais famoso: Yosemite. Embora o estacionamento seja tão grande quanto o parque e os ursos estejam fuçando entre embalagens de McDonald’s, ainda imaginamos Yosemite como Albert Bierstadt o pintou ou Charleton Watkins e Ansel Adams o fotografaram: sem nenhum vestígio da presença humana. É evidente que o próprio ato de identificar (para não dizer fotografar) o local pressupõe nossa presença e, conosco, toda a pesada bagagem cultural que carregamos.
Afinal, a natureza selvagem não demarca a si mesma, não se nomeia. Foi uma lei no Congresso, em 1864, que designou Yosemite Valley como o lugar de significado sagrado para a nação, durante a guerra que assinalou o momento da Queda do Jardim Americano. Tampouco a natureza selvagem venera a si mesma. Foram necessárias visitas santificantes de pregadores da Nova Inglaterra como Thomas Starr King, fotógrafos como Leander Weed, Eadwaerd Muybridge e Carleton Watkins, pintores que usam tintas como Bierstadt e Thomas Moran e pintores que usam palavras como John Muir para representá-la como o parque sagrado do oeste; o local de um novo nascimento; uma redenção para a agonia nacional; uma recriação americana. (…)
Ansel Adams, que admirava e citou Muir e fez o possível para traduzir sua reverência em imagens espetaculares, explicou, em 1952, ao diretor do National Park Service que fotografou Yosemite daquela maneira a fim de santificar ‘uma idéia religiosa’ e ‘inquirir de minha alma o que realmetne significa o cenário primitivo’. ‘Em última análise’, escreveu, ‘Half Dome é apenas uma pedra. [...] Existe uma profunda abstração pessoal de espírito e conceito que transforma esses fatos terrenos numa experiência emocional e espiritual transcendente’. Proteger o ‘potencial espiritual’ de Yosemite, acreditava ele, significava manter pura a natureza bravia; ‘infelizmente, para mantê-la pura, temos de ocupá-la’. (…)
Como acontece com Carleton Watkins ou Ansel Adams, é necessário utilizar a câmera para captar o momento natural. Com isso, o gesto organizador do artista apenas se transfere da mão no pincel para o dedo no obturador. E, nesse instante isolado de enquadramento, as velhas criaturas da cultura saem da toca, arrastando atrás de si as lembranças de gerações anteriores. (…)
Perceber o contorno fantasmagórico de uma paisagem antiga, sob a capa superficial do contemporâneo, equivale a perceber, intensamente, a permanência dos mitos essenciais. (…) Os hábitos culturais da humanidade sempre deixaram espaço para o caráter sagrado da natureza. Todas as nossas paisagens, do parque urbano às trilhas na montanha, têm a marca de nossas persistentes e inelutáveis obsessões.”
Schama, Simon. Paisagem e Memória. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.





Que coisa boa! Um luxo poder acompanhar o trabalho de uma doutorandinha assim tão especial. Ou, dizendo de outra forma. uma generosidade compartilhar mais essas dobras.
Estou por aqui acompanhando também sua pesquisa! Adoro paisagens, aliás uma palavra instigadora, vontade de desbravar paisagens.
Estarei então em boa companhia!
Lívia, generosa como sempre. valeu amiga!
Só ví esse post ontem, já quando a cia de foto comentou sobre idéias para fotos a partir dessas reflexões. Pra mim tb inspira e muito a pesquisa, acho que vai ser a minha sessão preferida do blog! Que bom poder acompanhar isso por aqui, adorei o post. Bj
Enquanto lia, recordei uma foto que estava jogada num canto daqui do HD (http://flic.kr/p/9kJfqZ); obrigado pela oportunidade, ainda que involuntária, desse reencontro.
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Estenderia, grosso modo, o que Schama aponta sobre a “natureza” como lugar cultural, inventado e arbitrário, também à “subjetividade”… A subjetividade, que é um lugar comum recorrente em tds modalidades de expressão artística, é uma coisa que nos é apresentada — bem ao gosto da ideologia individualista moderna — como sendo única, particularíssima etc. Mas, quando colocamos lado a lado as “expressões da subjetividade”, vemos o quão iguais são os pretensos “diferentes”.
Parafraseando Schama: “Todas as nossas paisagens, [internas ou externas,] do parque urbano às trilhas na montanha, [dos estados de espírito aos sentimentos,] têm a marca de nossas persistentes e inelutáveis obsessões.”